sábado, 30 de maio de 2009

Luz, que lá vem ela na passarela!

Aconteceu nesta quinta-feira, 28 de maio de 2009, no shopping Frei Caneca, na capital paulista, na 25ª Casa de Criadores, o coletivo TudiCofusi apresentou sua coleção verão 2010. Intitulada “Meu Mundo Diminuiu”, inspirada no conceito de mutação/adaptação do homem ao meio ambiente, especificamente no processo de transformação, ambiental e climática, que o mundo atravessa. A marca desfilou no segundo dia do evento, num mix de “peças mutantes e com deformações” desenvolvidas a partir dessa necessidade. “Nossa coleção é uma resposta ao aquecimento global, causa da inversão das estações e de fenômenos como o El Niño, o efeito estufa e a sensação de ter o Pólo Norte em Salvador!”, contam as idealizadoras da marca, a estilista Alexandra Fernandes e as designers Stella Fernandes, Keila Akemi e Márcia Higuchi.

Apostaram na mistura de cores frias e quentes, indo do branco, bege e azul ao verde-cítrico, laranja e vermelho, voltada para os tons da natureza, de plantas e bichos. Destaque para a combinação de biquíni e casaco com shape de inverno e tecido levinho, um dos looks que melhor sintetiza o conceito do verão TudiCofusi.

Além da preocupação com a questão ambiental, outro diferencial do coletivo TudiCofusi foi inserir na passarela, em apoio ao Projeto Viva a Diferença, mulheres com deficiências físicas. Para isso contaram com duas modelos do casting da fotógrafa e publicitária Kica de Castro, Any Marques, (deficiente auditiva) e Haonê Thinar, (amputada de uma perna desde os nove anos em virtude de um tumor ósseo) que é destaque da agência alemã Visable, de Dirk Gelbrecht, com sede em Langelsheim, representada no Brasil por Kica de Castro.

O acontecimento no evento foi um importante passo para romper os paradigmas relacionados à deficiência e provar que nada impede a realização de sonhos e objetivos traçados.

“A TudiCofusi mostrou, através da gente, que não existe idade, raça, estado físico, para a moda. A moda é o que você acredita que ela é, sem subterfúgios. É um vicio chamado vaidade, que pulsa na veia da gente em cada passo na passarela, cada fotografia, era uma mirada da lente da câmera no coração do modelo “, opina Any Marques.




Já para Haonê Thinar, vai além da quebra de preconceito, de superação de limites.
“Quero ter reconhecimento como profissional, sair nas ruas e ser fotografada, ter meu nome citado, receber o carinho e admiração das pessoas”.



“Quando a platéia começou me aplaudir,
senti uma emoção indescritível”.

Kica comenta que está orgulhosa e satisfeita com o profissionalismo e seriedade com que as meninas encaram o trabalho. São pontuais, responsáveis e disciplinadas, cuidam da alimentação, do corpo e da mente. Apesar da pouca experiência, mostram o seu empenho e talento, provando que o trabalho com deficientes físicos é algo que pode e deve ser encarado como profissão e não somente como algo assistencialista, como ainda acontece...
“A emoção durante o desfile foi grande. No final, saí correndo para dar um forte abraço nelas, que estavam com um sorriso maior que o rosto e brilharam na passarela”, comenta Kica, emocionada.


Backstage

Any Marques, Marcelo, Keila Akemi, Stella e Haonê Thinar

Any Marques, Haonê, consultora de moda Gloria Kalil
e Marcelo- projeto Viva a Diferença

Any Marques

Foto Sandra Silva de Oliveira
Any Marques, Haonê Thinar,
Kica de Castro-fotografia/Visable,
Stella Fernandes-TudiCofusi e
Marcelo - projeto Viva a Diferença

No atelie da marca, da esquerda para direita, Juliana Vargas Ferreira (estudante
de pós-graduação em Jornalismo Literário ), estilistas da Tudi,
Sandra (mãe de Haonê), e as modelo Any Marques e Haonê Thinar.

Haonê e Rodrigo Nonato

Antes do desfile Haonê usa camiseta de Evandro
LEGAL CAMISETAS VESTINDO INCLUSÃO


Confira o desfile


Colaboradores e parceiros – Nesta edição, colaboram com o coletivo TudiCofusi: Dani Ruano, no styling; a banda Bazar Pamplona, à frente da trilha sonora; a estilista Debora Casa, que assina os biquínis; o coletivo Televisão de Cachorro, com uma projeção na passarela; e a artista plástica Edilaine Cunha, na estamparia. A TudiCofusi conta ainda com as parcerias da Vicunha, Doutex e Converse. O estúdio Aretha garante o release e a redatora Ângela Ribeiro completa com seus Delírios em Palavras

+ FICHA TÉCNICA DESFILE //Tudis/Alexandra Fernandes/Keila Akemi/Marcia Higuchi/Stella Fernandes //Estilista colaboradora//Debora Casa //Stylist//Dani Ruano //Calçados//Converse All Star //Beleza//Lavoisier //Estampas//Edilaine Cunha //Vj/Televisão de cachorro //Trilha//Bazar Pamplona //Release//concepção//Estúdio Aretha //Ilustra máscara//Wagner Viana //Delírio em palavras//Angela Ribeiro //Modelos convidadas//Andrea Company/Flávia Cunha //Modelos VIVA A DIFERENÇA//Marcia Gori //Modelos Kica de Castro - Fotografias e Visable//Haonê Thinar/Any Marques//Bluetooth Marketing//Confraria Mobile //Captação//estúdio 101 //Cobertura//Louvre809

O coletivo TudiCofusi, projeto Viva a Diferença e Kica de Castro-Fotografias/Visable fizeram a diferença nesta edição da Casa de Criadores.
Inclusão é isso, respeitar a diversidade, acreditar no potencial humano e dar oportunidade a todos!


Dias Felizes!!

domingo, 10 de maio de 2009

Laços de família

Hoje, em homenagem ao amor mais sublime, que é único e incomparável: Amor de mãe!
Uma história de solidificação de laços de cumplicidade e principalmente de muita sabedoria, essa é a definição para a família Magalhães Martins! Como protagonistas dona Maria de Lourdes dos Santos Martins, 70, e Eduardo José Magalhães Martins Junior(Dudé, como é conhecido)37 .


Dona Lourdes é uma daquelas mulheres tipicamente brasileiras, simples e lutadora, casada, mãe de três filhas já crescidas, quando é surpreendida por uma gravidez não planejada, porém recebida com muita alegria e expectativa. “Meu filho foi um presente que chegou para todos nós no dia 24 de abril de 1972. Ele foi o que chamamos de “Raspinha do Tacho”. O pai ficou muito entusiasmado na época. “Depois de três meninas, será que o próximo será um garotão?”questionava ele. E, realmente, o garotão chegou! Mas veio um pouquinho diferente”, diz.
Dudé nasceu na maternidade, que, na época, era administrada por um convento. As freiras, de início, se recusaram a mostrá-lo para dona Lourdes, sem saber qual seria sua reação, ao vê-lo pela primeira vez, já que havia nascido com má formação congênita (sem parte dos bracinhos e uma perninha). “Confesso que a primeira reação foi chocante. Algo que tira o chão dos nossos pés, mas ele nunca deixaria de ser meu filho, acontecesse o que fosse”, comenta.
Passada a surpresa inicial, dona Lourdes, além do amor e dedicação natural de toda mãe, ali, naquele momento, rapidamente traçou um objetivo: torná-lo um homem realizado, feliz e que vivesse da forma mais normal possível, dentro de suas limitações físicas.
Eduardo foi crescendo e desenvolvendo-se como qualquer outra criança de sua idade, educado da melhor maneira possível, porém sem privilégios, afinal o casal tinha outras três crianças, pra educar.
Aos quatro anos, apesar de levar a vida como qualquer outra criança, comunicativa e muito levada, precisava de cuidados especiais. Morando no interior da Bahia (Valença), tornava-se difícil. Foi aí que, sem hesitar, a família decidiu mudar-se para São Paulo, onde logo, o tratamento começou. Passou pela primeira das penosas doze cirurgias que teve ao longo da vida, para correção de sua perna e pé, que eram virados 90 graus pra direita. “Uma coisa que eu e seu pai sempre admiramos é a forma com que Dudé sempre encarou as coisas. Muitas vezes me perguntei se, um dia, meu filho já sentiu medo na vida. Claro que ele já sentiu, mas sempre soube disfarçar bem. Lembro-me de um dia, quando ele tinha uns nove anos: não parava de chorar, por causa da dor que sentia, em virtude da última cirurgia que havia feito. Eu já não sabia mais o que fazer: tinha dado medicamento pra ele, mas parecia que a dor não cedia. Nesse dia, tranquei-me no meu quarto, desesperada, rezando, para que aquele sofrimento todo passasse, que não era justo uma criança de nove anos passar por aquilo. Alguns minutos depois, eu me lembro de ouvi-lo brincando com as suas irmãs. Cheguei e perguntei se a dor havia passado com o remédio e ele me disse, rindo: “Não passou, mãe. Só que, se eu pensar nessa dor, ela não vai passar. Então não vou pensar nela. Aí a dor passa”. Eu acho que este é o segredo do Dudé: ele nunca pensa na dor em si, mas no que pode ser feito, para que a dor passe”, lembra emocionada!


Os quatro irmãos

Chegando à adolescência, passado o período das cirurgias, recebeu a primeira alta do centro de reabilitação, onde ele se trata até hoje, que outra batalha começou, terminar os estudos, onde havia cursado da primeira à quarta série, dentro do próprio centro. A partir da quinta série, foi para uma escola comum. Aí as perseguições eram constantes, não só dos alunos. Houve muita implicância por parte de pais de alunos e muita omissão de professores e diretoria, também. “Trocávamos de escola a todo o momento, em virtude disso. Tudo, porque o Dudé era só um pouquinho diferente da maioria. Numa ocasião, ele se meteu numa briga na escola, por haverem mexido com sua deficiência. O resultado foi um olho roxo e a boca sangrando. Quando ele disse, chorando, que não voltaria mais para aquela escola, seu pai o colocou de castigo e disse que ele voltaria para lá, no dia seguinte, de cabeça erguida. Eu, como mãe, fiquei indignada com isso, mas meu marido justificou a atitude, dizendo que, se ele baixasse a cabeça para aquela situação, seria um covarde para o resto da vida”, relata

“tudo que conquistei, aprendi batalhar, lutar e
correr atrás daquilo que é meu por direito, foi
graças a esse casal abençoado por Deus"

Quando voltou para a escola, não demorou em a diretoria entrar em contato conosco, dizendo que ele havia tentado jogar uma lata de tinta na cabeça de um dos moleques que o insultaram. “O que era interessante nos colégios por onde passou era a eficiência da diretoria em repreendê-lo, quando fazia algo errado; mas negligente, quando ele era atacado verbal e fisicamente. Eu não digo que meu filho seja um anjo (quem o conhece sabe que o figura não é nenhum santinho), mas diretoria de colégio algum tinha o cuidado de defendê-lo, quando alguém o agredia. Talvez seja por causa disso que o Dudé saiba defender-se muito bem sozinho, em virtude da omissão alheia”, acrescenta.

Mesmo com todas essas dificuldades, chegou à faculdade. Formou-se em direito, com especialização na área penal. Mas, como já atuava como músico, foi o que ele decidiu continuar. Essa paixão, que já vem de família, começou, quando seu pai disponibilizava o aparelho de som nos finais de semana, para que ouvissem música o dia todo. Ouviam de Sá e Guarabira a Pink Floyd. Aos 13 anos, assistindo a um show da banda de rock, Queen, ouvindo Freddie Mercury cantando, Love of my life, determinou: “É isso que quero fazer da minha vida!”
A partir daí, correu atrás de seu sonho, sem pensar em obstáculos. Passou a estudar música, participar de bandas e festivais estudantis. Aos 16 anos, tocou, profissionalmente, numa banda de blues. Com 17 anos, começou a cantar profissionalmente, na noite paulistana, passando por várias bandas. Fez curso de canto com Nando Fernandes, um dos melhores professores de São Paulo, tornou-se um dos melhores alunos. Em 1998, iniciou, como professor de canto e logo começou a dar aulas de musicoterapia para adolescentes com deficiência física, em um centro de reabilitação, além das aulas em conservatórios e de trabalhar como técnico de som em estúdios de gravação e vendedor de instrumentos musicais. Mesmo com todas essas atividades, Dudé continuou a participar de bandas, fazendo shows na capital e interior de São Paulo.Em 2004, ingressou na Cia Mix Menestréis, dirigida por Deto Montenegro, e ficou trabalhando com teatro musical até 2007, apresentando-se no teatro Dias Gomes, em São Paulo, além de apresentações em outras cidades interior afora.

Cia Mix Menestréis

Em 2006, Dudé fez uma aparição no programa Raul Gil, participando do quadro "Quem Sabe Canta, quem não sabe Dança",quando este ainda era apresentado na TV Record.
Em 2008, começou a trabalhar como modelo fotográfico para o casting da fotógrafa Kica de Castro. Em novembro do mesmo ano, apareceu numa matéria sobre a agência da mesma, no programa SBT Repórter.
Dudé, atualmente, trabalha como professor de canto em sua residência e possui um Home Studio, onde faz algumas produções como orientador vocal. E, atualmente, trabalha como vocalista da banda EASY ROCKERS COVER BAND(que apresentarei em outra matéria. Aguardem!)que tem, em seu currículo, um show transmitido ao vivo pela famosa rádio Kiss FM de São Paulo.



Farra de final de show

Essa escalada de sucesso ele atribui a dona Lourdes, a quem considera uma guerreira, pela forma desprendida, sábia e à frente do seu tempo, onde o criou, numa época em que ser deficiente era algo muito mais estigmatizado, não havia campanhas nem projetos de inclusão(como hoje).
Concluo a matéria de hoje com um recadinho aos leitores do Mistura Fina dessa mulher merecedora de todas as homenagens.

“Só posso finalizar, dizendo a todas as mães com filhos especiais que, assim como eu,vocês são mulheres privilegiadas, pois somos aquelas que educamos, cuidamos e amamos essas pessoas que são guerreiras por natureza e que possuem o dom de amar a vida de forma intensa, (como meu filho, que é uma fortaleza). Aliás, o Eduardo vai além disso: ele é meu porto seguro”.






Conheça mais sobre Dudé:

terça-feira, 28 de abril de 2009

A Arte de Saber Viver!

Há momentos em nossas vidas que nos deparamos com exemplos de força, fé, determinação e, principalmente, superação. São características capazes de produzir grande estímulo em outras pessoas que, porventura, estejam passando por situações semelhantes à que será relatada nesta matéria.

É o caso de Mari Sabel, 37, que, no auge de seus 18 anos, então uma menina cheia de planos, quase teve interrompidos os seus sonhos por causa de um grave acidente de automóvel, que a deixou tetraplégica. “De repente, me vi num leito de hospital, sem conseguir movimentar sequer a cabeça. Minha primeira sensação foi a de incapacidade total (acho que quase todos se sentem assim), mas logo me veio uma força, incapaz de decifrar em palavras, que me fez acreditar em dias melhores, em recuperação, em vida pós-trauma”,conta.
Mari relata que, na época, foi um choque para toda a família e amigos que, até então, não tinham qualquer conhecimento ou informação sobre o assunto. As circunstâncias exigiram um longo processo de adaptação, cerceado por diversas duvidas e medos. Enquanto a maioria chorava ou tentava engolir o choro para disfarçar, ela fazia com que as pessoas se sentissem bem e mostrava que estava ali, inerte, mas viva! “Vivi todos os momentos de recuperação, toda dor, angustias, decepções, mas consegui valorizar muito mais os momentos de pequenas melhoras, às quais me apeguei com determinação, com muita vontade de viver. A partir daí, foi continuar com meus planos e sonhos, somente adaptando-os àquela nova condição de vida”, acrescenta.
Das várias histórias vividas por Mari Sabel, todas deixaram marcas importantes em sua vida, mas a que considera uma das mais profundas foi ter conhecido um homem desprovido de preconceito, que rendeu-se aos seus encantos e reaprendeu a viver de forma diferente da convencional, ao lado de uma mulher cadeirante. Em pouco tempo veio o casamento e, logo em seguida, a gravidez, para surpresa dos mal informados, que sempre pensam que deficientes físicos não têm vida sexual, ou mesmo que não podem ter filhos. ”Andava de blusas bem curtas ou rendadas, para mostrar ao mundo que estava gerando uma nova vida. Sempre foi meu orgulho! Aliás, meu não, pois como filha mais velha, foi o primeiro neto da casa. Então, imagine só como era tratado pelos avós, tios, primos e, principalmente, pelos pais”, comenta Mari, orgulhosa e em tom de mamãe coruja.


"Minha familia, meu orgulho"
Mas as surpresas (e boas surpresas) não pararam no nascimento de seu filho. Pensando já ter encontrado todas as formas de superação, Mari descobre o talento para as artes plásticas. “Foi paixão à primeira vista”, exclama. De terapia e passatempo, tornou-se profissão e fonte de renda do casal, trabalhando juntos, ela e o marido. Mari tem os movimentos das mãos limitados, pinta com a ajuda de manguitos (adaptações para as mãos), pois só recuperou parte dos movimentos dos braços. Mesmo assim, isso não a impede de pintar quadros de quase dois metros. Além das telas, também desenvolveu uma linha de artesanato capaz de gerar inveja em qualquer ser humano fisicamente apto. Confira abaixo








Telas







Pintando, me sinto ilimitada; podendo percorrer lugares infinitos, intransponíveis a outros olhos. E posso dizer, com todas as letras, que a arte hoje é a expressão viva da vida que há em mim! “

Não bastasse tantos adjetivos e vitórias, com belos olhos azuis, encantou a nossa já conhecida fotógrafa Kica de Castro, que a convidou para fazer parte de seu casting.
Mari poderia ser mais uma na multidão da diversidade, mas preferiu fazer a diferença, mostrando que tudo é possível.
Como mulher e cadeirante, posso afirmar que a vida não se limita ao que vemos, vai muito mais além. Acima de tudo, ou de qualquer problema físico, a beleza está muito mais dentro do que fora de cada um. Isso depende do transparecer a auto-estima e a honestidade consigo mesma. E se tenho de passar por isso, o farei da melhor forma. E concluo dizendo que, por muitas vezes, só através das dores percebemos a magnitude da vida!”, finaliza.


Para conhecer a galeria de Mari acesse:

segunda-feira, 6 de abril de 2009

"CLICkS" ULTRAPASSAM AS FRONTEIRAS DO PRECONCEITO







Até uns anos atrás, tempo não tão distante, falar sobre deficiência era um assunto capaz de provocar constrangimento; ter defeito físico, necessitar de algum tipo de acessório para se locomover, fosse um par de muletas ou uma cadeira de rodas, significava invalidez, seres descartáveis para a sociedade. Mesmo na atualidade, com os programas de apoio ao deficiente e amplas campanhas de conscientização, ainda existe muito preconceito, discriminação e ignorância em relação aos portadores de necessidades especiais.
Imagine, então, deficientes no mundo da moda! Como pode um deficiente - cadeirante, usuário de muletas ou próteses - ter sensualidade, beleza e charme? Será possível isto numa sociedade preconceituosa e com pensamentos preconcebidos, para quem a beleza e a sensualidade têm um padrão já estabelecido?
Até algum tempo, cogitar essa possibilidade era motivo de piada ou, no mínimo, comentário maldoso. (Já vivenciei situação assim, mas, depois, conto esse fato). Entretanto, para a ousada Kica de Castro, isto não existe. Fotógrafa e publicitária, é profissional de mente aberta, com a fina percepção de enxergar além do que aparenta ser, ela fala sobre beleza e sensualidade do deficiente com propriedade, visto que possui a experiência de quem já trabalhou no mundo da moda com os estereótipos muitas vezes impostos pela sociedade.
Seu currículo inclui, desde o ano 2000, o início de uma carreira com eventos sociais, passando, de 2002 a 2007, a atuar como chefe de fotografia em um Centro de Reabilitação para pessoas com deficiência física. Foi aí, segunda ela, que despertou seu interesse e proximidade com esse mundo. Produzindo fotos científicas para prontuário médico, Kica percebia a inibição e até constrangimento por parte desses pacientes. Sentiu, então, a necessidade de trabalhar a auto-estima dessas pessoas, com a ajuda de uma amiga psicóloga. Iniciou, dessa forma, sua jornada, que considero como um trabalho “de formiguinha”, já que, no Brasil, a trajetória de valorização do portador de necessidades especiais ainda segue a passos lentos. Em outros países, como os europeus, já existem concursos no estilo “a mais bela cadeirante", realizado na Alemanha e na França, uma espécie de “reality show” somente com deficientes .
Foi assim que levou para o estúdio da instituição acessórios, maquiagem; brincava, dizendo que as fotos iriam para as revistas com fotos sensuais e ficariam famosos. Conseguia, dessa forma, que se soltassem e, confiantes nela e em si mesmos, posassem para seus “clics” com mais naturalidade e leveza. A essa prática, Kica deu o nome de fototerapia!
O resultado da persistência e, acima de tudo, sensibilidade, de Kica de Castro chegou até à mídia graças a sua ousadia, responsabilidade e, principalmente, ética. Seu “casting” vem sendo solicitado para campanhas publicitárias e revistas segmentadas. A revista Sentidos (Editora Escala) traz na capa de sua edição 48, três lindas mulheres, sendo duas delas do casting de Kica de Castro: Diolice Barbosa,19, e Daiane Lopes, 27.
O caminho aberto por Kica ajudou Juliana Costa,13, a colocar em prática seu grande ideal de ser modelo. Paraplégica, vítima de bala perdida, sempre almejou as passarelas. Não desistiu desse sonho após o acidente e o viu tornando-se realidade quando foi apresentada a Kica de Castro no programa TV Xuxa, da Rede Globo de Televisão exibido em 30 agosto de 2008. Foi contratada pela fotógrafa para fazer parte de seu casting e hoje segue com seus ensaios fotográficos, sempre acompanhada pela produção do programa TV Xuxa. Confira
http://www.youtube.com/watch?v=I1uGzbz1emM(outubro/2008)
Esse trabalho tomou tamanha proporção que, recentemente, após alguns entendimentos, Kica de Castro se tornou representante oficial, no Brasil, da agência alemã Visable, de Dirk Gelbrecht, com sede em Langelsheim. Essa parceria amplia os horizontes para que moças e rapazes brasileiros portadores de deficiência ingressem no mundo da fotografia profissional no Brasil e exterior. No próximo mês de maio, Kica atravessará o Atlântico, acompanhada de duas modelos de sua agência, que vão se conhecer pessoalmente e realizar seus primeiros ensaios em terras internacionais. Na bagagem, a fotógrafa levará propostas de outros grandes projetos. “Tenho muitas idéias e quero levar muita gente boa e talentosa comigo, pois me realizo quando sei que colaboro para a realização de outras pessoas, autoras de outros projetos; tento fazer parceria, porque acredito no trabalho coletivo, princípio que adoto para acontecer a verdadeira inclusão. É preciso haver união”, afirma Kica, dona de uma simplicidade envolvente.
A modelo Haone Thinar,16, que, por decisão própria e com aval de sua mãe, aos nove anos amputou uma das pernas em função de um câncer, teve seu ensaio fotográfico enviado para a Alemanha. ”Hoje, ela é modelo destaque na Visable, e está fazendo muito sucesso. Estão amando suas fotos”, diz Kica, orgulhosa de sua pupila, levando, para a Europa, a beleza da mulher deficiente brasileira.
Outra “menina dos olhos” de Kica é a apucaranense Daiane Lopes ,27, Vítima de paralisia cerebral por falta de oxigenação na hora do parto, precisa de muletas para se locomover. Engajada, colaborou nas pesquisas para a criação de um dos personagens de história em quadrinhos “Turma da Febeca”, do cartunista carioca Victor Klier, cujos personagens são crianças e adolescentes com algum tipo de deficiência ou patologia. Logo após, conheceu Kica de Castro por meio do amigo Dudé e, em sua melhor fase, mostrou todo o seu potencial em fotos lindas e sensuais. Encara isto com muito profissionalismo e disciplina. Quando Kica a convoca para a sessão de fotos, ela sai do Paraná, toma ônibus, numa viagem de oito horas, e chega na data agendada, mostrando-se determinada ao que se propôs. E não para por ai. Por conta de fotos divulgadas em toda a mídia, Daiane foi vista por Emilia Cretuchi Quartim, presidente da Adefiap (Associação dos Deficientes Físicos de Apucarana), que desenvolve um trabalho de inclusão do deficiente físico no mercado de trabalho e garante acesso a tratamentos gratuitos. Encantada com o sucesso de sua conterrânea, Emilia a convidou para ser representante do Projeto Memorial Apucarana, com parceria junto à Secretaria de Cultura local.
Patrícia Lopes do Nascimento, 24, outra fotografada, participou de desfile numa feira de noivas e também de algumas fotos de moda para lojas de bairro e, ainda, foi promotora (recepção) em eventos de uma empresa multinacional.
Diolice Barbosa, 19, tetraplégica desde os 12 anos, devido a uma cirurgia mal-sucedida, para retirada de um tumor na coluna, reaprendeu a viver. Freqüenta uma instituição que ajuda na sua reabilitação e lá aderiu ao mundo das poses, pois, dona de uma beleza peculiar e um sorriso contagiante, foi convidada a posar numa campanha interna. Foi o seu passaporte para o mundo dos flashes, com ensaios para revistas e sites.
Outro integrante do casting é Eduardo Martins, mais conhecido como Dudé, 36 anos. Com má formação congênita nos membros superiores e inferiores,dono de múltiplos talentos e de carisma incontestável, em 2004 ingressou na Cia Mix Menestréis, dirigida por Deto Montenegro e ficou trabalhando com teatro musical até 2007, apresentando-se no teatro Dias Gomes, em São Paulo, além de apresentações em outras cidades interior afora.
Dudé atualmente trabalha como professor de canto em sua residência. Ele possui um Home Studio, onde faz algumas produções como orientador vocal e, também, atua como vocalista da banda EASY ROCKERS COVER BAND, que tem em seu currículo um show transmitido, ao vivo, pela famosa rádio Kiss FM, de São Paulo.

Conheça o casting



Michael Correia Daiane Lopes Diego Madeira Diolice Giulio e Marcia

Paty

Dudé

Carina
Juliana

Mary




Thiago Cenjor
Ana Tereza


Bom, pessoal, para finalizar, deixo, aqui, um recadinho de Kica de Castro para os leitores de Mistura Fina e para quem é deficiente físico e sonha trilhar o caminho da moda.

“Gostaria de dizer-lhes que meu objetivo é mostrar que ‘beleza’ e ‘deficiência física’ não são duas expressões contraditórias. Que pessoas com esse tipo de problema são felizes e têm os mesmos padrões de vida que as pessoas consideradas normais; e que trabalhar como modelo profissional é possível. Que existe sentido em nos preocuparmos com encontrar o rapaz, a moça, o companheiro ou alma-gêmea. E que não existe razão alguma para nos escondermos do mundo devido a um problema físico. Há muito mais num ser humano do que a perfeição física.”

Contato
kicadecastro@gmail.com
Fone 11- 8131-0154