terça-feira, 1 de junho de 2010

O exercício da maior de todas as artes!

Recebi um e-mail estranho, preconceituoso. Infelizmente, a pessoa não se apresentou de forma a conversarmos em tempo real.Tenho uma página em um site de relacionamento (Orkut), onde falo um pouco de mim.
Mas a pessoa ficou muito incomodada, dizendo-me que não cito que sou “portadora de deficiência”, para, em seguida, indagar-me se me envergonho disto.
Estranhei, muito, tal incômodo e má informação da parte dela, pois escrevo textos que são divulgados, falando só deste universo. Acho que ela não deve ter pesquisado a respeito.
Pois bem, não sou “portadora de deficiência”. Se fosse, certamente não a portaria mais, deixá-la-ia em casa e a esqueceria num canto qualquer.
Portadora sou do meu RG, CPF, enfim...
Sou uma pessoa com sonhos e planos. Tenho uma deficiência física, causada pela paralisia cerebral, que afetou minha coordenação motora, necessito de auxílio para algumas atividades físicas e, há dois anos e meio, tornei-me cadeirante.
Sou universitária, curso comunicação social. Para chegar até aqui, foram anos de muita luta, renúncias, privações. Amadureci mais cedo que as outras crianças e adolescentes, porque minha realidade era outra, era de compromissos nada convencionais para uma pessoa daquela idade. Acordava logo de manhãzinha, já com uma fisioterapeuta em casa, para fazer exercícios físicos. No período da tarde, uma terapeuta ocupacional e, duas horas depois, outra fisioterapeuta. Durante tres vezes na semana, natação e equoterapia. E, aos cinco anos de idade já incluía sessões de psicomotricidade (que foi o que possibilitou minha escrita, ainda que devagar, e a melhora em meus movimentos finos). Muitas viagens para consultas com profissionais reconhecidos internacionalmente, em instituições de reabilitação... incluindo uma cirurgia de alongamento dos tendões o que me obrigou a ficar com gesso dos pés até as coxas e uma trava entre os tornozelos, durante seis meses.
Ainda aos cinco anos, já conheci o preconceito e a rejeição em algumas situações, como escola (como pode perceber, não me destruiu).
Na fase da adolescência, comecei a cursar inglês, técnica vocal, teclado e Kumon. Mas tive que fazer a escolha, pois meu tempo não me permitia realizar todas essas atividades, porque meus tratamentos eram prioridade, prevalecia o que era melhor para minha condição física. Tudo foi feito no momento em que eu precisava. Desse modo, se tenho meus movimentos - ainda que limitados - e se não tenho uma deformidade maior, é devido a esse esforço e, claro, amor, dedicação e união incondicional da minha família, porque isto tudo custou dinheiro, meus pais investiram em mim em todas as circunstâncias, renunciaram a muitas coisas também. Mas sei que, um dia, serão recompensados, porque foi Deus quem os orientou, abençoou e direcionou para este caminho.
Por meio deste site de relacionamento e publicação dos meus textos, conheci muitas pessoas com deficiência; muitas não tiveram a mesma sorte que eu em alguns aspectos, alguns por morarem distante, sem os mesmos recursos.
Entretanto, em longas conversas, acabei ajudando-as, de alguma forma, a mudarem a visão que tinham, de modo que acabaram estimuladas a mudanças...
Então, a resposta para sua pergunta é: não me envergonho do que sou, não me aprisiono à minha deficiência, não canalizo meus pensamentos em meus limites, afinal o pensamento liberta o corpo!
Mas saiba que minha deficiência me proporcionou uma lição: a descoberta do imenso potencial humano, da valentia e do destemor, com que devemos manter a luz acesa, o espírito aberto e criativo, bem como o exercício da maior de todas as artes, que consiste em viver com dignidade!
Se, naquela apresentação, não comentei sobre isto, foi porque não sou a deficiência, sou Camila Mancini.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

"A beleza eu não sei definir"...

“Vem cara, me retrate. Não é impossível, eu não sou difícil de ler. Faça sua parte, eu sou daqui, eu não sou de Marte" (Marisa Monte - trecho da música Infinito Particular).

A estética é um assunto em evidência, sempre esteve presente na evolução da humanidade. Não é difícil encontrar essas etapas evolutivas. Veja, no tempo da pré - história, era bonito as mulheres terem excesso de pêlos por todo o corpo. Imagine, hoje, ficar um mês sem fazer depilação, nem pensar. Outro paralelo foi o período renascentista, quando o destaque era para as mulheres mais "cheinhas". Porém essa fase sofreu total alteração na década de 60, os padrões estéticos mudaram radicalmente, porquanto ser magro passou a ser primordial para a aceitação no mundo da moda. Atualmente, essa visão tem sido levada ao extremo, por vezes até cruel, quando meninas, tão jovens e belas, sofrem com a angústia de ter o corpo dentro dos “padrões” exigidos. Ser parecido com um esqueleto se tornou referência de beleza para muitos.
Com tanta tecnologia à disposição, não há uma capa de revista de moda que não tenha usado os famosos tratamentos de imagem. Com essa manipulação digital, acabam criando um biotipo de ser humano inexistente. Na maioria das vezes, não vemos nem os poros da pele. Quem não se lembra do caso de uma revista masculina que, de tantas correções, acabou deixando a modelo sem umbigo?
Essa busca incansável pela perfeição revela o lado discriminatório do mundo fashion, pois, se há essa exigência, como ampliar os horizontes de tal forma, a ponto de inserir uma pessoa com deficiência física nessa profissão?
Vemos que ainda existem muitas barreiras e preconceitos, quando falamos de pessoas com algum tipo de deficiência, como padrão de beleza e sensualidade.
Porém, para não ser injustos, devemos levar em conta as diversas campanhas que têm sido realizadas, nos últimos tempos, contra a “magreza exacerbada” de muitas modelos, adotada por alguns estilistas, de cujos desfiles as mesmas não participam, se não estiverem no peso e aparência saudável, ideal a sua estrutura física.
Ainda há muito a se fazer, mas já contamos com pessoas de mente aberta, que estão dispostas a romper, radicalmente, com o preconceito e a discriminação e a acelerar esse processo de modificação de conceitos do que é ser bonito. Para que isso ocorra, já contamos com projetos que mostram que as pessoas com deficiência física ,sim, ter sensualidade e beleza e tornar-se destaque nessa área. Para isto, já contamos com algumas inovações ousadas, como a Agência de Modelos para Pessoas com Deficiência , situada em São Paulo, que insere seus modelos em desfiles específicos e também nos mais tradicionais, junto a modelos sem nenhuma deficiência e em ensaios fotográficos, fazendo com que (cadeira de rodas, muletas, bengalas, próteses), que, até então, eram considerados elementos de invalidez, que escondiam a beleza e a sensualidade de seus usuários, se transformassem em acessórios da moda, utilizados para quebra desses conceitos.
" A beleza eu não sei definir, mas, sempre que a vejo, sei percebê-la". Esta frase de Ivo Pitanguy – Cirurgião Plástico exprime o real conceito da ideia de vermos a beleza humana como algo diversificado, misteriosamente surpreendente!

domingo, 9 de maio de 2010

AMOR DE MÃE!

Ela sempre foi uma pessoa iluminada, decidia e determinada.
Casou-se aos 22 anos, teve sua filha aos 26. O desejo que fosse do sexo feminino era grande, no ultrason, foi mostrado que o desejo do casal se realizaria, o pai, não contém suas lágrimas de felicidade e desaba ali mesmo, na sala do exame, momento inesquecível para o casal.
Começam os planos para essa criança, imaginam momentos imensuráveis , o primeiro banho, o engatinhar, os primeiros passos, a escolinha, o colégio, faculdade...A criança nasce bem, vai pra casa e começa alí uma experiência incrível, difícil e inesperada para esse casal.
A criança chora desesperadamente por dias, os médicos tentam mudar a forma de aleitamento, além do peito, inserem outros leites e nada resolve, quando aos dois meses, tentam algo diferente e passam a dar papinha para uma criança de dois meses, mesmo assim ela chora em gritos. Então é descoberto por meio de um exame doloroso, sem anestesia por ser tão bebe, descobrem que ela tem um problema sério nos rins, a mãe acompanha tudo com dor no coração, mas com a certeza de Deus lhe presenteou com o nascimento dessa filha tão esperada, que tudo ia dar certo, começa ali um tratamento sério, aos 8 meses, milagrosamente a criança está curada de um refluxo gravíssimo e que poderia ter apodrecido seus rins. No momento que começaram a relaxar, a mãe percebe que a criança tem algo diferente, ao sentar-se ela caía de ladinho, e já começou uma outra corrida contra o tempo, levaram-na em muitos médicos e não definiam o que era, alguns chegaram a dizer-lhe que era para ela se aquietar, porque sua filha não tinha nada, que não ficasse comparando com as outras, mas ela sempre seguiu a intuição de seu coração, de sua alma esqueceu esses conselhos e seguiu a procura de outros médicos, um casal que era tão inexperiente, que viveram sempre na companhia e proteção dos pais, saem pro mundo, viajando muitas capitais a procura de uma resposta, até que as tem... Num fatídico dia, ouvem que sua pequena tinha Paralisia Cerebral e que pelo fato de ela ser inteligente, talvez pudesse andar um dia, mas que nada podia afirmar naquele momento. Outra luta, corrida contra o tempo, investem tudo que tem, tanto em questões financeira, quanto emocional. Essa mulher, que tempos antes vivia a vida de forma alegre e suave, encontrava-se diante de uma situação desconhecida e triste.
Transforma esse problema em motivo e desejo de viver com mais intensidade e atingir o objetivo que traçara ao engravidar,:fazer essa criança feliz, realizada e viver todas as fases planejadas. E assim o fez!
Foram anos de treinamentos, de lágrimas de decepção, escolas, passeios, brinquedos, pessoas más, de milhares de “nãos” ouvidos mas deixados para trás... Alguns objetivos traçados não foram alcançados de forma literal, como o primeiro engatinhar, os primeiros passinhos sozinha. Mas essa mulher, com a infinita sabedoria que Deus lhe concedeu, soube criar, dar amor, preparar para a vida essa criança, que nasceu tão frágil, com tantos desafios e barreiras, a fez de outra forma, não engatinhar, mas dar seu primeiros passos, a cada dia que amanhecia e que amanhece.
Viveu esse amor tão sublime e de forma visceral, que é o amor de mãe...
No mês de abril, essa “criança” completou 21 anos e recebeu a seguinte mensagem:
“Amada Filha
Por você oramos, pedimos a Deus uma linda filha, e Ele nos presenteou com seu nascimento.
Somos realizados. Você é exatamente a filha que desejamos. É amorosa, educada, bom caráter, digna, gentil, dócil, você é uma pessoa maravilhosa! Exemplo de determinação e humildade!
Hoje você faz 21 anos e nossa vivência foi de muito aprendizado, de muito amor e respeito, de lutas e vitórias, muitas vezes de tropeços, mas tropeços para nos impulsionar a dar um salto maior para a felicidade. Tivemos momentos muito tristes, mas nos unimos na fé, esperança e oração para o Senhor Jesus nos fortalecer, andar conosco lado a lado e, muitas vezes, nos carregar em Seus braços de amor. Nestes anos todos, cada palavra, cada atitude sua, só nos enche de orgulho e é motivo de agradecimento pela sua existência. E você sabe que nossa união e amor são incondicionais.
Camila, "Todo o poder no céu e na terra reside na pessoa de Jesus Cristo. Sem Ele, ninguém pode esperar ter sucesso. Porém, com Ele, o fracasso é impossível”.
Nosso desejo é que você O tenha sempre como seu Salvador e Senhor!
Querida tenha um feliz aniversário, que Deus te proteja sempre, ilumine seu coração que é tão lindo e cheio de amor.
Um grande beijo e obrigada por existir em nossas vidas!
Seus pais que te amam muito”
Pois é, essa “criança” sou eu!!!!!
Hoje comemoramos o dia das mães, quero deixar aqui um agradecimento a Deus, pela imensa sabedoria, bondade e misericórdia, por ser infinitamente maravilhoso e conceder a nós filhos, que nascemos um “pouquinho diferentes” mulheres tão maravilhosas , corajosas e determinadas que são nossas mães.
Em especial a minha que dedicou um amor de forma assombrosamente maravilhosa, encantadora, acompanhada de tanta sabedoria que é a responsável por tudo que me compõe e me faz ser essa pessoa realizada e feliz!
Vivo minha vida com um conselho dela...”Siga teu caminho sempre com duas sacolas imaginárias, uma em cada mão, uma com fundo a outra sem.Tudo que ouvir de bom, guarde na sacola com fundo e o que não for bom, guarde-a também,mas na sacola sem fundo, assim você vai seguir sua vida deixando para trás tudo que não lhe faz bem, carregando consigo somente o que lhe edifica, que lhe faz bem e feliz!”
Obrigada Valéria Mancini, minha MÃE!
Te amo!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Preconceito. Uma praga que denigre a espécie humana

Bom, como nem todos sabem, sou cadeirante há dois anos, tenho paralisia cerebral, que afetou minha coordenação motora. Estou com 21 anos, cursando Comunicação Social, porém, para chegar à universidade. Não foi fácil! Além de ter que superar minhas dificuldades e limitações, ainda tive que enfrentar uma grave “praga” que insiste em existir na cabeça e nas atitudes de muitos “seres humanos” desinformados, chamada preconceito.
Conheci esse tal preconceito aos 5 anos, quando meu sonho era estudar num colégio evangélico (inclusive da religião que sigo), mas não me aceitaram lá, simplesmente porque eu iria precisar de alguém, para me ajudar na locomoção, e meus pais sempre se dispuseram a ajudar ou deixar minha babá lá na sala de espera, para me ajudar nesses momentos. Mesmo assim, disseram-lhes não.
Então fui para um colégio que me recebeu muito bem e que, infelizmente, hoje não existe mais. Mas eram bem preparados para tratar as diferenças com o devido respeito (não tinha ligação religiosa), e, infelizmente, só funcionava como jardim e pré.
Bom, para resumir, como eu gostava, muito, da minha igreja, de sua doutrina, tentei estudar lá, em todas as fases da minha vida, que foram do jardim ao ensino médio. Mas tudo em vão, pois, a cada época, era uma desculpa.
Na quinta série, tentamos um outro colégio, que também tem certa ligação religiosa. E esse foi mais cruel, porque, lá, era e é adaptado, sem degraus, com rampas onde necessário, inclusive com o símbolo de acessibilidade.
Segui em frente, administrando cada ”não” recebido e fazendo deles um degrau, no meu caso (rampa), para minha subida e realização pessoal.
Passei a escrever e, em meus textos, incansavelmente digo que meu sonho é que a geração que vier depois de mim não tenha que travar uma “luta”, para exercer seus direitos de cidadãos.
Pois bem, 21 anos se passaram, estamos vendo, aí, campanhas para inclusão, para acessibilidade, até novela inserindo personagem com deficiência estamos tendo.
Infelizmente, nesta semana, fiquei sabendo de um caso que me deixou extremamente triste, revoltada e com muita raiva... Uma criança de 4 anos, viveu exatamente o que vivi, há 16 anos, na mesma escola que exibe o símbolo da acessibilidade. Essa escola esconde, atrás de uma máscara, um lado cruel, arrogante, ignorante e ruim. Daniela Mendes Alves, mãe do pequeno Pedro Lucas, me contou, num desabafo angustiante, que seu filho não teve o direito de frequentar a escola. Mesmo ele tendo feito uns dias de adaptação e sendo aprovado pela professora, não foi aceito, simplesmente porque é cadeirante.
Seus diretores usaram de muitas desculpas, até mesmo dizendo que alguns pais de alunos os questionaram sobre a presença de um deficiente físico no grupo, com seus filhos. E finalmente que eles não estavam preparados para recebê-lo.
“O fato final, para não aceitá-lo, foi realmente ele ser cadeirante e precisar de ajuda de uma pessoa em determinadas ocasiões, alegando que, se ele melhorasse um dia, poderíamos voltar lá, para matriculá-lo, e que eles não estavam preparados para receber alguém como ele. Isto tudo, sabendo que a situação dele não era de melhora, e, sim, de adaptação, porque ele é cadeirante. Independente de conseguir, um dia, andar pequenas distâncias, ele nunca será uma criança ou um adulto totalmente independente, o que foi colocado, desde o início, pra eles. Na verdade, foi a mesma coisa que dizer: seu filho não é normal, na minha escola só estudam crianças normais, que me deem lucro absoluto”, desabafa Daniela.
Não bastasse esta decepção, há duas semanas, Daniela, seu marido e Pedro estavam num shopping e ele, como qualquer outra criança, estava brincando, “correndo”, e, para surpresa de todos, chegou um segurança, solicitando(exigindo) que seus pais o fizessem parar de "correr", de brincar, que era para ele ficar quieto e parado ao lado deles, porque ele poderia machucar-se e machucar alguém, como se a cadeira dele fosse uma arma, e não as suas pernas.
A decepção foi grande e angústia causada na alma desses pais foi desumana.
Não podemos deixar isto se estender por mais tempo. Acredito que vamos conseguir mudar as coisas, primeiramente saindo das tocas, infelizmente tendo, ainda, que quebrar barreiras, superar nossos próprios limites, impondo, assim, nossa presença em todos os lugares. Com efeito, só assim, faremos valer nossos direitos; mostraremos a essa sociedade hipócrita e preconceituosa, a nossos governantes que existimos, que somos trabalhadores, estudantes, contribuintes, como qualquer outro ser humano.
Que possamos unir-nos numa só voz e objetivo, para que os outros que vierem depois de nós tenham mais facilidade para os estudos, trabalho, lazer. Enfim, que vivam de uma forma mais natural, descomplicada, que tenham só e exclusivamente que superar os limites da deficiência, sem ter que sofrer e clamar, incessantemente, por um direito constituído,que é a tão falada, discutida e almejada acessibilidade, inclusão social e o respeito a esses direitos...

sábado, 3 de abril de 2010

Na minha cadeira ou na tua?

Numa de minhas navegações pela internet, em 2008, procurando por profissionais com deficiência na área de comunicação, encontrei Juliana Carvalho, apresentadora do programa Faça a Diferença , da TV Assembleia. Canal 16, NET, que promove os direitos humanos e o respeito à diversidade, Juliana estava pensando em fazer um quadro para o Faça a Diferença que abordasse, de forma leve, as agruras do dia-a-dia das pessoas com deficiência.
Apresentei-lhe um projeto do qual ela gostou e, em reunião com sua equipe, foi aprovado e hoje faz parte de seu programa com uma vinheta em um de seus quadros.
Mas não é dessa parceria que quero falar hoje...
Quero falar um pouco dessa “Mulher-Menina”, Juliana Carvalho, que é um encanto, profissional maravilhosa, acompanhada do que acredito ser imprescindível numa pessoa, principalmente em profissionais formadores de opinião: a ética.
Ju,28 anos, mora em Porto Alegre-RS, é publicitária. Cadeirante desde os 19 anos, quando teve uma inflamação na medula, não deixou essa limitação física impedi-la de viver da forma que deseja, que lhe faça feliz!
Tive a oportunidade de ficar hospedada em sua casa, em 2008, e é uma delícia a convivência com ela.
Em dezembro de 2009, fomos a SP, numa passeata a favor da acessibilidade. No dia seguinte, combinamos ir ao MASP.
Se atrasou um pouco, foi de metrô, sozinha, desafiando os obstáculos impostos na gigante metrópole.
Chegou radiante, por ter conseguido essa façanha!
Passamos a tarde juntas e mais um casal de amigos dela, que amei muito conhecer também. À noite, fomos a uma choperia e lá ficamos por longas horas. Encanta-me a energia positiva que ela nos passa, o astral, a doçura acompanhada de uma postura firme e bem resolvida diante da vida.
Como não podia deixar de ser, Ju escreveu um livro, onde relata momentos importantes de sua vida, numa mistura de lutas e realizações. Não foi fácil, quem a conhece sabe que, por muito tempo, batalhou bastante, para conseguir a sua publicação. Mas é claro que o conseguiu (ela não adota a “o impossível” em seu vocabulário). São relatos importantes e que vão cooperar para a edificação de muitos.
E ainda teremos a oportunidade de conhecer um pouco mais dessa guria fantástica, que encanta e nos prende a atenção por longas horas.
Além do programa que apresenta o Faça a Diferença, Juliana mantém os blogs “Comédias da Vida Aleijada” e “Sem Barreiras”, esse do Grupo RBS, que aborda questões sobre acessibilidade e inclusão. Dirigiu o curta-metragem “O que os olhos não veem as pernas não sentem”, premiado pelo Júri Popular do Festival Claro Curtas de Cinema. E, agora, o seu primeiro livro: Na minha cadeira ou na Tua?
Parabéns, Juliana, pela conquista de mais um sonho e principalmente pelo exemplo de determinação, que é digno de aplausos!


Lançamentos "Na minha cadeira ou na tua?"



RJ - 08/04
Livraria da Travessa
Shopping Leblon

SP - 12/04
LIVRARIA CULTURA - CONJUNTO NACIONAL

BH - 15/04
Biblioteca pública estadual Luiz de Bessa

POA - 22/04
LIVRARIA CULTURA - BOURBON SHOPPING COUNTRY

Brasilía - 27/04
LIVRARIA CULTURA - CASAPARK SHOPPING CENTER

terça-feira, 23 de março de 2010

Amor e Respeito às Diferenças!

A chegada foi agradável, tudo é vida, imponentes e luxuosas árvores, formam o pequenino bosque; a sinfonia dos pássaros habitantes, perfeita aos ouvidos de almas viventes; perfumes misturam-se ao colorido do jardim. Madres tais quais anjos, em suas vestes alvas como a neve, nos dão as boas vindas!
Essa overdose de paz e tranqüilidade aos poucos cede lugar à curiosidade frente ao desconhecido. Ao adentrar os corredores frios, ladeados de portas entreabertas, os olhos assustados e curiosos alcançam leitos ocupados por seres fragilizados. Seguimos em frente, sedentos de novas descobertas. Chegamos a um dos cômodos mais esperado, onde seus moradores passam uma boa parte do tempo; uma sala, muitas cadeiras, imagens sacras por todos os cantos e uma TV, onde vêem o que acontece no lado de fora. O impacto do momento diante daquela cena (de homens contidos, com olhar vagante, em seu canto, só nos observando) foi quebrado por uma voz fraca, porém expressiva, recepcionando-nos com delicadeza e elegância nas palavras. João , orgulhoso, exibe um quadro na parede - Prêmio Dignidade 2004 - contendo seu nome, narrando as fases de sua vida, com riquezas de detalhes, nos surpreendeu, ao contar-nos que trabalhou, por alguns anos, na construção de nossa universidade. Com orgulho, comenta do sucesso e realização de seus filhos e netos, uma mente que se contrapõe a um corpo marcado pelo tempo, nos prende a atenção por quase uma hora. A vontade de ficar é imensa, mas a busca por desbravar, minuciosamente, aquele local era necessária. A volta pelos corredores nos levara a outros moradores que se aproximavam em busca de um gesto de carinho e de atenção...




Chegando ao lado oposto, um ambiente de paredes rosadas, flores e muita doçura, um certo romantismo pairando no ar, habitando, ali, rostos angelicais, remetendo-nos, imediatamente, à lembrança do acolhimento materno, sim, elas, as mulheres, por mais frágeis que pareçam ser. Pelas décadas já vividas, são capazes de nos encantar e enxergar a bela face do envelhecimento, a sabedoria!
Na sala onde ficam as senhoras que necessitam de um cuidado maior, por suas dificuldades de locomoção, algumas se destacam por algum motivo natural de sua personalidade; algumas carinhosas, outras curiosas e até dengosas, felizes com nossa presença. Enquanto conversava com Elza, uma senhora recheada de carinho e anseio em distribuí-lo, percebi o olhar fixo e rígido de uma senhora introspectiva e observadora. Aproximei-me, cumprimentei-a. Foi o suficiente, para desaparecer-lhe aquela imagem sisuda e nela brotar um sorriso discreto, porém pleno dessa senhora. Logo ao fundo da sala, na ponta de uma grande mesa, alguém diz algo que não entendemos. Ela, de olhos puxadinhos, uma oriental, se comunicando em sua língua, mas, pelo gesto, entendemos o que ela desejava, o que foi confirmado pela enfermeira, que permanece na sala. Ela queria falar e segurar a mão do meu amigo, que, gentilmente e num gesto de muito carinho, lhe retribuiu. E um fato bonitinho ocorreu no momento em que foi disparada uma luz, o flash da minha câmera, para registro da cena tão encantadora. Ela, num jeitinho meigo e dengoso, fez manha, esfregando as mãos nos olhos e dizendo ai ai ai (como uma criança que faz dengo, para receber carinho), arrancando sorrisos de todas as que estavam ali.


Saindo Dali, deparamo-nos com outra senhorinha, que achou muita graça, ao me ver numa cadeira de rodas, brotando de seu íntimo uma gargalhada que, talvez, há muito não se ouvia, mostrando, em seu pensamento, que cadeira de rodas era somente para os idosos.
Passando pelos corredores com portas adornadas de flores, o encantamento era maior a cada encontro, com uma agradável sala de terapia ocupacional com paredes revestidas de sentimento. O momento foi mágico, duas senhoras, com trabalhos distintos, porém magníficos, dona Aurora exprimia, no papel, a suavidade de seu interior. E Madá não emite palavras, mas a doçura de seu sorriso e olhar, noz faz entender as palavras contidas no íntimo de sua alma. Sobre a mesa, tecido com retalhos, um a um, com a sincronia perfeita na combinação das cores, um lindo tapete, que, no mês de dezembro, é acrescentado a outros trabalhos, e realizado um bazar beneficente. Quando registrada nossa imagem e mostrada e ela, a reação de surpresa e gargalhada nos fez perceber que, há tempos, não era retratada numa foto.


Cozinha organizada, pátios, quartos e corredores mostram o carinho que ali é plantado e cultivado.
Mas também encontramos olhares tristes, perdidos no vazio da solidão que invade o coração e o pensamento de cada um, demonstrando um desejo enorme de estar no seio da família, o que é angustiante.
Passei a semana com o pensamento voltado para eles, em seus pensamentos, com vontade de voltar e me solidarizar com cada ser ali presente.


Como lição, fica que nós jovens temos que valorizar cada minuto com nossa família, nossos avós principalmente, que a essência da vida é o AMOR e RESPEITO às DIFERENÇAS!!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Universo Mulher!


Numa realização do Governo do estado paraibano, por meio do Programa Estadual de Políticas para Mulheres, em parceria com Prefeituras municipais e organizações sociais, o “Universo Mulher” contou com apresentações artísticas e atividades de promoção à saúde e prevenção de doenças.

Com o objetivo de defender a diversidade cultural e social, a iniciativa reuniu ciganas, negras, índias e pertencentes a grupos, como quilombolas e adeptas do estilo gótico, policiais e teve, como convidadas, mulheres com deficiência física, que integram a Agência de Modelos para Pessoas com Deficiencia- Kica de Castro- SP, para desfilarem com roupas e acessórios de estilistas e artesãos paraibanos.

Quando Kica voltou da reunião realizada em janeiro último, para a seleção de mulheres em João Pessoa, comentou que estava encantada e satisfeita com a organização e a estrutura montada para a realização desse evento. Chegando lá, entendi o porquê de seu encantamento. A receptividade foi indescritível, bem como a organização, a atenção para conosco, desde o hotel até o centro cultural. Os artesãos, estilistas, organizadores se esforçaram, para que tudo saísse com perfeição, em respeito aos convidados e ao público presente.

Foi uma escolha feliz dos organizadores a inserção de todas as classes, crenças e estilos físicos de mulheres.

Cada vez mais caminhamos, para que essa inclusão seja realizada, aceita e respeitada. E continuo sonhando com o dia em que não teremos mais que lutar por ela, que seja naturalmente aplicada à sociedade.

Em nome de todas as meninas da Agência de Kica de Castro, quero agradecer aos organizadores e a todo o povo paraibano pela receptividade, o respeito e a simpatia que nos dispensaram.


Obrigada!